Treino intenso pode reprogramar a microbiota intestinal, diz estudo

Quando pensamos nos efeitos do exercício físico, normalmente lembramos de músculos, coração e resistência. Mas o intestino também entra nessa equação.

A microbiota intestinal — conjunto de trilhões de bactérias que vivem no trato digestivo — participa da digestão, regula o sistema imunológico e produz substâncias importantes para o equilíbrio do organismo.

Um estudo publicado em maio de 2025 no Journal of the International Society of Sports Nutrition mostra que a intensidade do treino pode alterar de forma significativa esse ecossistema interno.

A pesquisa acompanhou 23 remadores de alto rendimento, com idade média de 19 a 20 anos, comparando dois momentos distintos: um período de alta carga de treinamento, antes de competições, e uma fase de baixa carga, durante o descanso.

Treino pesado x treino leve

Durante as duas fases da pesquisa, os atletas forneceram amostras de fezes ao longo de 24 horas e registraram a alimentação. A análise revelou que, no período de treino intenso, houve aumento nos níveis de butirato e propionato — dois ácidos graxos de cadeia curta produzidos pelas bactérias intestinais.

Essas substâncias são consideradas importantes para a saúde da mucosa intestinal e têm efeito anti-inflamatório. Além disso, a diversidade das bactérias foi maior durante a fase de alta carga.

Em termos científicos, maior diversidade costuma estar associada a um ambiente intestinal mais equilibrado. Também foi observada maior frequência de evacuação nesse período, enquanto na fase de descanso alguns atletas sequer produziram fezes nas 24 horas avaliadas.

Os pesquisadores destacam que a dieta também foi diferente entre os períodos, com melhor qualidade alimentar durante a fase de treinamento intenso.

Isso indica que as mudanças na microbiota provavelmente não se devem apenas ao exercício, mas ao conjunto de fatores que acompanham a rotina de treinos — incluindo alimentação e funcionamento intestinal.

Reprogramação ou adaptação da microbiota?

Os autores utilizaram o termo “reprogramação” para descrever a mudança no perfil das bactérias conforme a carga de treino aumenta. No entanto, o estudo não afirma se essas alterações são permanentes ou apenas respostas adaptativas do organismo às novas demandas físicas.

O que os dados mostram, de forma clara, é que o intestino não é um sistema isolado. Ele responde rapidamente às mudanças no estilo de vida. Quando o corpo é submetido a maior estresse físico, o ambiente intestinal também se reorganiza.

Embora a pesquisa tenha sido feita com atletas de elite, os resultados reforçam uma ideia cada vez mais consolidada na ciência: o exercício físico influencia não apenas a composição corporal e o sistema cardiovascular, mas também a microbiota intestinal.

Ainda são necessários mais estudos para entender se essas alterações impactam diretamente o desempenho esportivo ou a saúde a longo prazo. Mesmo assim, o trabalho amplia a compreensão sobre como atividade física, alimentação e intestino estão interligados.

Em resumo, o treino intenso não fortalece apenas músculos. Ele também pode modificar — ao menos temporariamente — o conjunto de microrganismos que vive dentro de nós.

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