Tereza aguarda que Bolsonaro diga que não é candidato, indique nome e estratégia
Em 40 minutos de entrevista ao Campo Grande News, em seu gabinete em Brasília, a senadora Tereza Cristina (PP), líder da federação UBP em Mato Grosso do Sul e peça chave no tabuleiro eleitoral fez uma avaliação realista do ainda incerto cenário para 2026 e apontou o calcanhar de Aquiles da direita: “O que realmente precisa acontecer é o presidente Bolsonaro dizer que não será candidato. Assim, ele poderá orientar a estratégia e definir qual nome terá apoio, dando força e unidade à direita, com respaldo e direção claros dentro do grupo”.
Ela frisa que o nome deve ser eleitoralmente viável, admite que falta maturidade na direita para definir quem tem condições de vencer e, embora acrescente que nada está colocado, não descarta sair como vice de um candidato à presidência da República no ano que vem. “Tudo é possível”.
No cenário de Mato Grosso do Sul, Tereza Cristina reconhece que a disputa deve se acirrar caso a ministra do Planejamento, Simone Tebet (MDB) entre mesmo na corrida pelo Senado e está preocupada com uma eventual divisão na direita. Ela lembra que o PT, que deve apoiar à ministra, mantém cerca de 20% de apoio no Estado e que Lula chegou a 40% dos votos em 2022 — números suficientes para antever um provável cenário eleitoral disputadíssimo, puxado pela cobiça das duas vagas ao Senado.
A senadora também detalha o desafio de montar chapas competitivas, costurando coligações e equilibrando apoios entre partidos, especialmente diante da possibilidade de racha na direita se o ex-deputado e ex-candidato ao governo, Capitão Contar, ficar sem espaço no grupo na disputa ao Senado.
A senadora fala sobre as investigações da CPMI do INSS, que miram José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão do presidente Lula, o aumento dos processos de recuperação judicial que afetam o agro, regularização das terras na faixa de fronteira, rota bioceânica e a possibilidade de retomada das obras de conclusão da fábrica de fertilizantes de Três Lagoas.
Veja a entrevista:
“A oposição precisa ter maturidade para escolher um nome viável até dezembro”.
Como a senhora avalia o cenário para uma candidatura nacional da oposição? Há nomes como Tarcísio, Ratinho, Michelle Bolsonaro…
A oposição não vai deixar o presidente Lula disputar sozinho. Temos bons nomes. O que falta agora é ver quem tem viabilidade, porque não adianta ter só intenção — tem que ter chance real de vencer. O adversário está posto, é o presidente Lula. Falta definir quem, no campo do centro-direita, vai enfrentá-lo. As conversas estão andando e espero que tenhamos maturidade para resolver isso.
Na sua avaliação, qual é o nome mais fortes?
Tarcísio é um bom nome. Ratinho é bom nome. Caiado também. Temos vários, e isso é até um privilégio da direita: há nomes preparados, que conhecem o Brasil e têm projeto. O país precisa de alguém viável, mas também de alguém que traga um plano de governo claro — o que vai fazer, quais reformas pretende tocar. Não adianta ter nome sem projeto.
O Eduardo Bolsonaro está prejudicando a direita com suas movimentações políticas no exterior?
Não, ele é um player como os outros. Seu nome está posto e tem peso na articulação. O que realmente precisa acontecer é o presidente Bolsonaro dizer que não será candidato. Assim, ele poderá orientar a estratégia e definir qual nome terá apoio, dando força e unidade à direita. As pessoas respeitam sua liderança, então, quando ele define isso, o grupo ganha direção. Não vejo Eduardo como um problema; ele apenas faz parte do jogo.
A direita deve se unir em torno de um único candidato já no primeiro turno?
Isso é uma estratégia que ainda precisa ser construída. Primeiro, é preciso saber quem são os “players”. Pode ser um só, podem ser três. O ideal seria uma frente ampla, com todos à mesa, desprendidos, pensando no Brasil. Nosso país não pode continuar sendo o “país do futuro” que nunca chega lá. Precisamos de um projeto comum, mesmo que depois se definam dois ou três nomes dentro da estratégia eleitoral.
O ex-presidente Bolsonaro deve ter papel central nessa articulação?
Com certeza. Ele é um líder da direita, e as pessoas o respeitam. Foi ele quem fez a direita renascer no Brasil. Essa decisão vai passar por ele, seja indicando um nome, seja ajudando a definir a estratégia. O nome apoiado por ele certamente sairá com mais força.
Seu nome é citada como um possível “candidata” a vice-presidente?
Eu nunca serei “candidata a vice”, porque não existe eleição para vice. O vice é escolhido pelo candidato à Presidência. É claro que fico honrada quando lembram do meu nome, mas essa é a última decisão, e depende do perfil do presidente. Se ele quiser uma mulher, alguém de centro, alguém de outro partido — isso vem depois.
Agora, se me perguntam se eu descartaria, não. Tudo é possível. O que quero é ver o Brasil avançar. Como dizia Roberto Campos, somos um país que adora perder oportunidades. Se eu puder contribuir, estarei pronta. Mas ainda tem muita água pra correr debaixo dessa ponte.
No Estado, a senhora está com o governador Eduardo Riedel. Como deve ser montada a chapa para 2026?
Eu seria incoerente se não o apoiasse. Fomos parceiros na eleição passada, quando ele se elegeu governador e eu senadora. Hoje ele está no PP, então é natural que caminhemos juntos. O PL vem conosco, e agora estamos vendo se Republicanos e PSD também se somam. O tabuleiro está se movendo.
O ex-governador Reinaldo Azambuja deve sair pelo Senado. Como fica a disputa pela segunda vaga na direita?
A eleição para o Senado é de dois votos. Então, se quisermos eleger dois nomes do centro-direita, precisamos de transferência de votos entre eles. Pode haver candidato do PP, mas isso depende da construção. O grande desafio é evitar o racha — e isso só se faz conversando, com paciência, diálogo, pesquisa, articulação local. Política é conversa.
O nome do Capitão Contar vem sendo citado como possível candidato.
O Contar é um bom nome. Está bem avaliado hoje e tem diálogo com vários partidos. Já conversamos, inclusive. Mas eleição é todo dia, e ainda falta muito. A política começou a se movimentar muito cedo — já tem um ano que só se fala nisso em Mato Grosso do Sul. É desgastante. A coisa de fato começa a partir de abril, com as desincompatibilizações. Depois vêm as convenções e aí, sim, o jogo se define.
Há chance de composição entre Reinaldo Azambuja e Contar?
Sim, eles estão no mesmo campo. É uma questão de conversa e de construção.
Simone Tebet pode entrar na disputa pelo Mato Grosso do Sul. Isso muda o cenário?
A Simone é uma mulher preparada, já foi senadora, ministra, conhece o Estado. Mas ela tem um teto — uma rejeição que é real —, e o nosso Estado é muito conservador. O PT tem um tamanho lá.
Se ela sair candidata ao Senado ou ao governo o cenário não mudaria?
Se ela for candidata ao Senado, com certeza vai haver um acirramento maior entre a direita e a esquerda. Ao governo, não. Pelo que tenho lido, ela fala em disputar o Senado. Se sair ao Senado será uma disputa dura”.
Qual o peso do PT no Estado?
“Acho que 20% ou vinte e poucos por cento. Na eleição passada, o Lula teve 40%”
O governador Riedel fará reforma no secretariado até o final do ano?
Não acredito em uma reforma ampla. Ele deve apenas trocar secretários que vão sair para disputar a eleição. Não sei se será em dezembro ou janeiro, mas é um movimento natural.
Fonte: Campo Grande News

